[ALERTA: o texto a seguir aborda assuntos relacionados a violência doméstica. Caso você esteja passando por uma situação do tipo ou conheça alguém que precise de ajuda, procure a Central de Atendimento à Mulher, disponível 24 horas pelo telefone 180, ou a Delegacia Especializada da Mulher (DDM) mais próxima]
Juliana Garcia dos Santos, de 35 anos, denunciou publicamente a violência doméstica sofrida por seu ex-companheiro, o ex-atleta de basquete Igor Eduardo Pereira Cabral. A agressão brutal ocorreu no elevador do edifício onde a vítima reside, em Natal (RN), resultando em mais de 60 golpes desferidos contra ela. O ataque foi registrado pelas câmeras de segurança do local, e o agressor foi preso no sábado, 26 de julho. Em entrevista ao Domingo Espetacular, da Record, a vítima falou brevemente sobre os efeitos psicológicos e físicos que a absurda violência a causou.
Para entender melhor esses efeitos, o Portal Marcia Piovesan conversou com a psiquiatra Dra. Milliane Rossafa. Segundo a profissional, episódios de tamanha brutalidade causam problemas duradouros e profundos na vida da vítima: “No primeiro momento, a vítima pode apresentar sintomas de choque, confusão mental, desorganização emocional e medo intenso. Mas, mesmo depois do período mais agudo, é comum que ela desenvolva transtornos mentais que exigem acompanhamento psiquiátrico e psicológico”.
Além do abalo físico, a vítima experimenta traumas na autoestima, no senso de segurança e até mesmo na própria identidade. Juliana já está sentindo os primeiros sintomas dessa nova vida. Em entrevista à Record, ela diz não se reconhecer mais: “Eu me olho no espelho e não consigo enxergar a mulher vaidosa que eu sou, minha vida que foi tirada. Meus olhos roxos simbolizam resistência e esse é só o começo da minha nova vida”.
Desencadeamento de transtornos
Rossafa explica que vítimas de agressões tão graves costumam desenvolver patologias psíquicas que exigem tratamento imediatado e intenso. “O mais comum é o desenvolvimento de um Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). A vítima pode começar a reviver a cena, ter flashbacks, pesadelos recorrentes, medo constante e evitação de qualquer coisa que remeta ao agressor. Há também um aumento da irritabilidade, dificuldades de concentração e problemas de sono”, disse.
Outros transtornos mais profundos podem ser desenvolvidos a partir do trauma: “É muito frequente que surjam quadros de depressão, com sentimentos de inutilidade, culpa, tristeza profunda e até pensamentos suicidas. Em alguns casos, vemos o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), com sintomas como insônia, tensão muscular, sensação de perigo iminente e crises de pânico. Também pode ocorrer um apagamento parcial da memória do episódio, como parte de um transtorno dissociativo, quando o trauma é tão intenso que o cérebro tenta ‘desligar’ daquela realidade”.
A recuperação
A psiquiatra pontua que a superação de um trauma dessa dimensão é lenta e não deve ser apressada por ninguém. Pode envolver uso de medicamentos, psicoterapia, acompanhamento em grupo e outros tipos de tratamento: “Muitas precisarão de medicamentos, terapia, rede de apoio e tempo. Nenhuma mulher sai ilesa de uma violência assim. É possível reconstruir a vida, mas isso exige cuidado profissional e uma sociedade que não minimize esses episódios. O primeiro passo é tirar a culpa da vítima e garantir que ela receba ajuda o quanto antes”.







