Arlindinho, filho de Arlindo Cruz, declarou que, apesar da tristeza pela morte do pai, a sensação é de alívio. O jovem cantor explicou que o sambista sofria, desde 2017, com sequelas de um acidente vascular cerebral hemorrágico, o que tornou os últimos anos extremamente difíceis para toda a família. Durante o velório do sambista, realizado entre sábado (9) e domingo (10), na quadra da Império Serrano, Arlindinho falou do sentimento diante da perda: “Alívio por saber que ele não vai estar mais sofrendo”.
“Cheguei a questionar várias coisas da vida [após o AVC], um cara tão maneiro, inteligente”, desabafou o filho do compositor. O velório seguiu os pedidos do próprio Arlindo Cruz, que havia solicitado que a cerimônia acontecesse na quadra da escola de samba e incluísse churrasco e bebida alcoólica. Arlindinho contou ainda que sua mãe, Babi Cruz, estava sob efeito de medicamentos e, por isso, não havia chegado à despedida no momento da entrevista.
Para compreender melhor os aspectos psicológicos envolvidos no processo de luto familiar, especialmente quando há um longo período de cuidados paliativos, conversamos com a psiquiatra especializada, Milliane Rossafa.
O luto antecipatório
A triste morte de Arlindo Cruz é um caso de luto antecipatório, já que os filhos estavam lidando com a partida e com o estado vegetativo do pai há sete anos. Segundo a profissional, esse sentimento é profundo: “É um processo emocionalmente complexo que mistura tristeza, esperança e desgaste contínuo. Ao conviver diariamente com a perda gradual das funções e da interação de quem amam, esses familiares experimentam uma dor silenciosa que, muitas vezes, começa muito antes do óbito”.
Por esse motivo, é compreensível que os filhos estivessem ‘desejando’ a partida do pai: “O sofrimento psicológico envolve a tentativa constante de conciliar a realidade da limitação com a memória do que a pessoa foi, gerando sentimentos de impotência, ansiedade e, por vezes, culpa por desejar o fim do sofrimento”.
Ao contrário do luto natural, o luto antecipatório estende a partida: “Preparar-se para a morte nesse contexto significa elaborar internamente uma despedida prolongada, em que o apego e a resignação coexistem, e que exige apoio emocional constante para evitar sobrecarga mental, depressão e isolamento social”.







