A influenciadora Bia Miranda, que recentemente se tornou mãe pela segunda vez, anunciou que só irá compartilhar fotos da filha Maysha em seu “mêsversário”. Ela enfatizou que a bebê “não é para a internet e nem vai ser”, criticando as cobranças que muitas mães enfrentam para expor os próprios filhos nas redes sociais. “Vocês me seguem no Instagram, então vão me ver, mas não vão ver minha filha aqui”, disse, ressaltando que o direito da criança à privacidade é prioridade e que a exposição online não define a qualidade de seu vínculo familiar.
Essa é uma decisão que vem sido tomada por diversos pais devido ao perigo de expor seus menores na internet. Para entender melhor o assunto, conversamos com o médico Iago Fernandes, especialista em saúde mental, que apontou que preservar a imagem das crianças é o melhor caminho a se seguir.
O perigo do sharenting
Nos últimos meses, vem crescendo a preocupação com o chamado sharenting, isso é, o ato de publicar imagens e informações sobre si nas redes sociais. Segundo o profissional, o ato pode causar diversos efeitos negativos: “Embora muitas postagens saiam de afeto e desejo de compartilhar momentos, a literatura científica e organizações de saúde apontam consequências reais — desde embaraço futuro e violação de autonomia até impactos no desenvolvimento social e emocional. Estudos e revisões mostram associação entre a prática e sentimentos de violação de privacidade, constrangimento e problemas na construção da identidade da criança”.
Citando Zygmunt Bauman, o médico acrescenta: “Ao transformar momentos íntimos em conteúdo efêmero de rede social, muitas famílias deixam de perceber que as marcas emocionais para a criança podem durar muito mais do que o post em si.”
Como isso prejudica a saúde mental das crianças
Fernandes lista diversas consequências severas ao psicológico infantil:
- Perda de autonomia e controle da própria história: Crianças expostas rotineiramente têm menos poder sobre como serão vistas por outros agora e no futuro — isso pode afetar autoestima e senso de identidade;
- Constrangimento e vergonha: Muitos adolescentes relatam vergonha de posts dos pais na infância, o que pode gerar conflitos de confiança e desgaste na relação familiar;
- Comparação e exposição a comentários: Conteúdo infantil publicado publicamente fica sujeito a likes, comentários e críticas — fatores que podem aumentar ansiedade e insegurança. Organizações pedem cautela e reflexão sobre consentimento.
E para as mães?
Essas consequências se estendem aos pais. Segundo o profissional, muitas mães se sentem pressionadas: “Para as mães, a superexposição também tem custo psicológico: pressão para performar a maternidade, comparação constante, medo do julgamento público e responsabilidade por ‘monetizar’ ou gerir a presença online dos filhos. A visibilidade pode transformar momentos íntimos em conteúdo e gerar ansiedade, culpa e sensação de vigilância permanente. Além disso, quando críticas ou ‘cancelamentos’ ocorrem, a cobrança emocional recai fortemente sobre a mãe.”
Perigos concretos
Além dos perigos emocionais, expor as crianças na internet ainda pode acarretar em uma série de riscos. O médico cita:
- Risco físico e de segurança: fotos e posts podem revelar localização, rotina e informações identificáveis — aumentando risco de stalking, grooming ou roubo de identidade;
- Rastreamento de dados e uso comercial: imagens podem ser recolhidas por algoritmos, usadas em anúncios ou por terceiros sem controle dos pais;
- Consequências legais e de privacidade: legislações ainda correm para acompanhar a prática; a ausência de controle sobre conteúdos publicados na infância pode dificultar remoção futura.
Como evitar os riscos
Fernandes indica que tudo seja conversado e acordado entre pais e filhos, mas que é necessário evitar mostrar o rosto dos pequenos nas redes sociais, principalmente contra a vontade
- Peça consentimento (quando possível): mesmo com crianças pequenas, criar o hábito de perguntar e explicar o que será compartilhado;
- Evite informações identificáveis: não publique localidade, escola, nomes completos, datas de nascimento detalhadas ou rotinas que permitam rastreamento;
- Use grupos privados e limitados: prefira álbuns fechados para família próxima; evite perfis públicos para conteúdos de crianças;
- Pense no futuro digital: imagina como seu filho(a) poderá se sentir aos 16, 20 anos — isso ajuda a decidir o que publicar;
- Poste com cuidado no conteúdo sensível: evitar fotos sexualizantes, humilhantes ou que possam expor vulnerabilidades;
- Adiar abertura de conta própria: organizações médicas recomendam cautela; muitos especialistas sugerem esperar até aos 13 anos para abrir contas em plataformas como Instagram/TikTok, avaliando maturidade individual.
“Compartilhar conquistas e momentos de afeto é legítimo — mas a linha entre memória e exposição pode ser tênue. Pensar na autonomia da criança, na segurança digital e no impacto emocional que essas postagens terão no futuro é responsabilidade dos pais e cuidadores. Pequenas mudanças de hábito (mais privacidade, menos detalhes pessoais, diálogo com a criança) protegem tanto a saúde mental dos filhos quanto o bem-estar das mães”, finaliza.







