Investigação do Cenipa conclui que gelo severo, falhas de manutenção, erros da tripulação e problemas na fiscalização contribuíram para a queda do voo 2283 em Vinhedo.
O relatório final do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) revelou os fatores que levaram à queda do voo 2283 da Voepass, acidente que matou 62 pessoas em 9 de agosto de 2024, em Vinhedo, no interior de São Paulo.
Segundo o documento, divulgado nesta quinta-feira (23), uma sequência de falhas técnicas, operacionais e de fiscalização comprometeu a segurança da aeronave durante todo o trajeto entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP).
Gelo severo e alertas ignorados marcaram o voo
A investigação concluiu que o avião enfrentou condições severas de formação de gelo desde a subida, situação que permaneceu até a queda. Além disso, foi identificada uma falha no sistema de degelo da asa direita, essencial para manter a aeronave em condições seguras de voo.
Durante o trajeto, o sistema emitiu pelo menos oito alertas relacionados à baixa velocidade e à perda de desempenho. No entanto, de acordo com o Cenipa, os procedimentos de emergência previstos para esse tipo de situação não foram executados pela tripulação.
O relatório também aponta que conversas pessoais dentro da cabine desviaram a atenção dos pilotos, reduzindo o monitoramento dos instrumentos em um momento crítico do voo.
Erro na cabine agravou a perda de controle
Quando a aeronave entrou em estol — condição em que perde sustentação —, o copiloto realizou um procedimento contrário ao recomendado pelo fabricante. Em vez de empurrar o manche para recuperar o controle, ele o puxou, agravando ainda mais a situação.
Sem conseguir retomar a estabilidade, o avião entrou em um parafuso chato, girando sobre o próprio eixo enquanto despencava. A aeronave completou cinco voltas antes de atingir o solo, com velocidade de descida de aproximadamente 14 mil pés por minuto, o equivalente a cerca de quatro quilômetros por minuto.
Falhas de manutenção também foram determinantes
O Cenipa identificou problemas na manutenção da aeronave. O ATR 72-500 foi liberado para operar mesmo apresentando falha no sistema de degelo, defeito que não havia sido registrado no diário de bordo.
A investigação apontou ainda uma cultura de “normalização de desvios” dentro da companhia, com panes sendo registradas de forma incompleta ou comunicadas informalmente para evitar que aeronaves fossem retiradas de operação.
Antes da decolagem, o avião apresentava ao menos 10 itens com falhas, incluindo problemas no limpador do para-brisa.
Segundo o investigador responsável pelo caso, tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, a aeronave não deveria ter sido autorizada a decolar diante da previsão de chuva e da falha no equipamento.
Relatório também cita atuação da Anac
O documento também faz críticas à atuação da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Segundo o Cenipa, auditorias anteriores já haviam identificado irregularidades na manutenção e no registro de falhas da companhia.
Apesar disso, as medidas adotadas não foram suficientes para reduzir os riscos, permitindo que a empresa continuasse operando mesmo com indícios de degradação dos padrões de segurança.
Em nota, a Anac informou que analisará as conclusões do relatório e avaliará as recomendações apresentadas pelo Cenipa no prazo de até 120 dias.
Recomendações para evitar novos acidentes
Como resultado da investigação, o Cenipa encaminhou recomendações à Agência Europeia para a Segurança da Aviação (EASA), responsável pela certificação da fabricante ATR.
Entre as medidas sugeridas estão a revisão dos procedimentos para voos em condições de gelo, melhorias nos sistemas de alerta da aeronave, aperfeiçoamentos na caixa-preta e no monitoramento dos equipamentos.
Também foram propostas mudanças para a Anac, incluindo reforço na fiscalização, revisão de checklists operacionais e aprimoramento da comunicação entre equipes de solo e tripulações.
O que diz a Voepass
Em nota oficial, a Voepass classificou a queda do voo 2283 como o momento mais difícil de sua história e afirmou que continua prestando solidariedade às famílias das vítimas.
A empresa destacou que atua há mais de 30 anos na aviação brasileira, informou possuir certificação internacional IOSA desde 2012 e declarou que a tripulação era experiente, certificada e estava com treinamentos e exames médicos em dia.
A companhia também afirmou que colaborou de forma transparente com as investigações conduzidas pelo Cenipa e permanece à disposição das autoridades.
Relembre o acidente da Voepass
O voo 2283 caiu na tarde de 9 de agosto de 2024, em um condomínio residencial de Vinhedo (SP), durante o percurso entre Cascavel e Guarulhos.
As 62 pessoas a bordo, sendo 58 passageiros e quatro tripulantes, morreram no acidente. Além da investigação técnica conduzida pelo Cenipa, a Polícia Federal instaurou um inquérito para apurar possíveis responsabilidades criminais relacionadas ao caso.







